Trauma Relacional
Existem diferentes tipos de experiências que podem ser vividas como traumáticas: acidentes, assaltos, desastres naturais, perdas, lutos e também vivências desafiadoras que se dão nos relacionamentos, sobre as quais falarei um pouco mais.
O trauma relacional ou interpessoal, se dá em vínculos tóxicos, abusivos e/ou negligentes, com pessoas próximas, por ex., em relações entre a criança e seus cuidadores, entre casais, líderes, professores, entre outros.
Quando a experiência de estresse e ameaça vem justamente de alguém de quem se esperava afeto, cuidado e segurança, ela pode ser ainda mais dolorosa. Isso acontece porque, além de lidar com aquilo que está acontecendo, a pessoa pode se deparar com a ruptura de uma relação que deveria representar proteção e confiança.
Infelizmente, a maior parte, de situações que causam trauma interpessoal acontecem com crianças e adolescentes, que podem deixar marcas que, em maior ou menor grau, repercutem ao longo da vida.
E nós adultos também podemos passar por situações que podem ser vividas como uma grande ameaça, como no trabalho em situações de assédio moral, ou sexual. Entre casais: em situações de violência, término da relação, traição.
É importante lembrar que uma mesma situação pode ser vivida de maneiras muito diferentes por cada pessoa. Um assédio, uma traição ou uma separação, por exemplo, não são, por si só, sinônimos de trauma. Mas podem ser profundamente desorganizadoras para algumas pessoas.
Trata-se de uma experiência subjetiva atravessada por uma dor profunda, um choque, em que se sente impotência, falta de controle. Como se o corpo e a alma dissessem, “perdi o chão”, “não vou dar conta”, “vou quebrar”, “não vou aguentar”…
Como se a situação estivesse exigindo recursos internos, uma força interior, que não estamos conseguindo acessar naquele momento.
Em alguns momentos da vida, podemos vivenciar experiências intensas, que são percebidas como maiores que a nossa capacidade emocional, algo que ultrapassa a capacidade de tolerância e enfretamento.
E sim, é possível resgatar a força curativa que existe em si. Mas, para isso, é preciso dar espaço para acolher a dor, falar sobre ela e permitir-se senti-la.
Sentir o que precisa ser sentido e, aos poucos, dar movimento ao que ficou paralisado ou represado. Sem apressar o processo, permitindo que novas compreensões e significados possam surgir, um dia de cada vez.
É um movimento de fluxo e integração, para que algo novo possa nascer. Aos poucos, ir recuperando a confiança em si e na vida, até se sentir inteiro novamente, apesar do acontecido.
E, nesse caminho, também podem ser resgatados o prazer de viver, a capacidade de cultivar relações mais saudáveis e o contato com desejos, projetos e metas que fazem sentido para a própria vida.
Andressa Pereira Miiashiro
Psicoterapeuta, orientadora de carreira e vocacional.
